Ser taxista é...
Ser taxista é padecer no ponto da Valparaíso. É aguardar, por horas, um passageiro e aceitar, com um sorriso, quando ele diz: "É uma corridinha curta, hem!". É engraxar os pneus do táxi, deixá-los bem pretinhos para, em seguida, pegar uma corrida para a única rua embarrada da cidade. É deixar o carro limpinho, cheiroso e recebê-lo fedendo a cigarro do motorista da noite. É atacar-se da rinite quando aquela velhinha embarca com a roupa cheirando a mofo e naftalina. Ser taxista é suportar a fumaça dos escapamentos, a poluição do ar, o ruído das motocicletas. É dobrar o retrovisor do táxi para que este não seja quebrado pelos motoboys.
Ser taxista é contar a féria após cada corrida, na esperança que dê cria. É fazer a média de consumo cada vez que abastece. É sofrer para achar as moedinhas do troco daquela passageira que acabou de dar R$ 1 de esmola para o achacador da sinaleira. Ser taxista é fazer uma corrida para o outro lado da cidade e não pegar nem resfriado na volta.
Ser taxista é ser psicólogo, conselheiro, carregador de sacolas, guia turístico, consultor de moda ("O senhor acha que esse chapéu me cai bem?"). Ser taxista é não correr muito, ou ir mais rápido, porque o passageiro está atrasado. É ir pelo caminho mais curto, evitar os congestionamentos. Ser taxista é cair em congestionamentos. Ser taxista é tentar ganhar tempo avançando o sinal amarelo, retornando onde não pode, excedendo a velocidade. Ser taxista é ser multado.
Ser taxista é fazer calos nas mãos, sonhando com uma direção hidráulica.
Ser taxista é pendurar um rosário no retrovisor, é mandar benzer o carro, é fazer o sinal da cruz antes de engatar a primeira marcha do dia. Ser taxista é ser assaltado, perder a féria, o relógio, o celular, o táxi, ser humilhado, ter o traseiro chutado e ainda considerar-se um cara de sorte por conseguir voltar vivo para casa. Por MAURO CASTRO
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